Pico dos Barcelos para turista (não) ver
Pico dos Barcelos para turista (não) ver
O recinto do miradouro exibe más condições gerais, mas o pior mesmo é o cenário envolvente, com edifícios abandonados e transformados em lixeiras
Data: 13-11-2009
A vista sobre a cidade do Funchal continua belíssima como sempre foi, mas a moldura que a envolve não é nada agradável. Há anos que um cenário de degradação tomou conta do Pico dos Barcelos, um dos mais emblemáticos e procurados miradouros da Madeira, em cujo quotidiano circulam centenas de turistas. Que por mais bela que seja a paisagem que se lhes oferece, dificilmente conseguem manter-se alheios às más condições gerais do recinto, aos edifícios abandonados situados nas redondezas, transformados em depósitos de lixo e em improvisadas salas de chutos e ao matagal que cresce descontroladamente pela encosta sul.
Os que habitam e ganham a vida nas imediações esperam pelo arranque das obras do anunciado plano de recuperação, previsto para o início do próximo ano e que é encarado como uma espécie de ‘luz ao fundo do túnel’, a derradeira esperança para trazer de volta a dignidade àquele importante ponto turístico da freguesia de Santo António.
O projecto da Câmara Municipal do Funchal contempla uma intervenção numa área de 8.489 m2, onde se inclui um jardim, um parque público e zonas de apoio. Por ali já há quem sugira que o projecto deveria contemplar a vedação do recinto, a exemplo do que sucedeu com o Parque de Santa Catarina. Que, garantem-nos, será a única forma de combater os actos de vandalismo que frequentemente se praticam no miradouro e, também, de evitar que o local continue a ser um poiso para toxicodependentes.
Saúde pública em causa
A situação não é nova, já foi abordada por várias vezes nas páginas do DIÁRIO, contudo tem-se eternizado no tempo. Dois edifícios abandonados, onde no passado funcionaram estabelecimentos de restauração, estão agora transformados em autênticos depósitos de lixo e em salas de chuto onde se vai matar o vício. Situações que muito preocupam quem ali vive e que coloca em causa a própria saúde pública, até porque se regista uma proliferação de ratos nas redondezas.
Num desses espaços, situado ainda antes da chegada ao Pico dos Barcelos, para além da estrutura de ferro, pouco mais resta daquilo que foi um restaurante muito frequentado durante décadas. Sucessivos actos de vandalismo destruíram todo o interior do prédio, onde agora só se vê lixo espalhados pelo chão.
Na vertente norte do pico, um outro edifício, onde também já funcionou um restaurante e um bar, sente igualmente os efeitos do vandalismo. As portas foram retiradas, os vidros das janelas e gateiras partidos e os equipamentos furtados ou simplesmente destruídos. Nem as telhas escaparam. E ali também se deposita lixo.
Segundo nos garantiu um vendedor ambulante da zona, bem recentemente foram furtadas mesas e cadeiras do espaço onde até há cerca de dois anos funcionou um bar. Um furto concretizado após o arrombamento de um dos acessos, dado que aquele era um dos poucos locais que se mantinha fechado e, por isso, resistia às investidas dos intrusos. Os serviços de salubridade da Câmara Municipal do Funchal já procederam, por mais do que uma vez, à retirada do lixo depositado em ambos os edifícios, desde electrodomésticos a móveis velhos, passando por colchões e detritos domésticos. Contudo, o efeito da limpeza é meramente temporário: pouco tempo depois, há mais gente a fazer daqueles locais autênticas lixeiras.
Má conservação do recinto
No recinto do miradouro, excepção feita às casas de banho públicas, que se apresentam limpas e com luzes a funcionar, tudo o resto deixa muito a desejar. A começar pelo bebedouro, cuja torneira foi destruída e nunca substituída; agora serve de cinzeiro improvisado, a julgar pelas beatas de cigarros que acumula.
Água também é coisa que não se vê há muito tempo na fonte ornamental situada mesmo ao lado. Designadamente desde que o motor de bombeio que estabelecia a circulação entre as três plataformas se avariou e os vendedores ambulantes, com receio de que as águas estagnadas se tornassem um foco de eclosão do mosquito ‘aedes egypti’, decidiram eles mesmo esvaziá-la. Ironicamente, não se vê a água mas consegue-se ouvi-la a escorrer, em desperdício, junto à tampa do esgoto ali existente.
Já as partes ajardinadas estão razoavelmente cuidadas, mas mesmo assim nada comparado com o que se via há alguns anos – épocas em que ainda funcionava a luneta de miradouro entretanto desactivada. Em algumas zonas nota-se que há plantas em falta. Garantem-nos no local que há turistas a retirá-las e a levá-las consigo, perante a complacência de alguns guias. Sugere-se, por isso, a colocação de tabuletas a avisar da proibição de colher plantas.
O desleixo a que está votado o miradouro é visível em situações que, inclusivamente, representam um perigo para a segurança dos visitantes: como sucede com alguns buracos existentes no chão de pedra miúda, verdadeiras armadilhas para alguém mais distraído e que podem facilmente provocar uma queda; ou ainda para os vidros partidos dos postes de iluminação pública, que uma rabanada de vento pode projectar para cima de algum transeunte. Sem esquecer um banco de cimento destruído e com os ferros da estrutura à mostra.
Valha a verdade que a culpa deste mau estado geral do miradouro do Pico dos Barcelos não pode ser assacada, por inteiro, às entidades públicas que têm por missão zelar pela manutenção daquele espaço (a Câmara Municipal do Funchal e a Direcção Regional de Turismo tem, cada qual, um funcionário incumbido de prestar apoio ao espaço). É que a esmagadora maioria dos danos ali existentes resultam não do desgaste do tempo, mas de actos de vandalismo de quem por ali circula. E nem a cruz de pedra situada no topo escapou às atitudes incivilizadas de alguns, que a mancharam com tinta.
A juntar a tudo isto, registo ainda o extenso matagal que se estende pela encosta sul do pico. Que representa mais um foco de proliferação de bicharada.
Nélio Gomes
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