Fardas bem aceites para evitar desigualdades

Diário de Notícias – Madeira

Fardas bem aceites para evitar desigualdades
André Escórcio propõe fardas para todos os níveis de ensino e batas para os professores
Data: 04-11-2009

“Os jovens sabem que a desigualdade existe. O que não deve é a escola ajudar nessa diferenciação”. É desta forma que André Escórcio, deputado do PS-Madeira, justifica a inclusão de um ponto sobre a utilização de fardas e/ou batas no projecto de decreto para um novo regime jurídico para o sistema educativo regional.

Afirmando que no regime jurídico proposto “há aspectos muito mais importantes do que os uniformes”, André Escórcio esclarece que a medida, de acordo com a proposta apresentada, seria aplicada em todos os graus de ensino e nas escolas públicas e privadas. “Só quem entra numa escola pública e vê o que por lá acontece, mormente, as formas de vestir pouco adequadas com a idade e com a instituição(…). Não se trata de qualquer autoritarismo nem de uma política de rebanho mas, a escola, deve dar sinais de igualdade e não permitir que uns sejam mais iguais do que outros”, esclarece.

O recurso a uniformes é, acima de tudo, mais uma forma de educar os alunos para a vida. Os jovens, defende André Escórcio, “devem diferenciar-se pelo seu rigor e empenhamento no estudo e não pela marca da camisa, da t-shirt ou das calças, do telemóvel ou dos ténis ‘adidas’, que muitas vezes conduzem à identificação junto de um grupo que relega os restantes. Pelo menos na escola são iguais”. Além disso, recorda, sistemas educativos de países como o Japão, o Brasil, há muito que adoptaram o uso de fardas, por isso a medida não seria nova.

E a regra deveria também abranger os docentes, até porque “também aí existem muitos excessos”. André Escórcio diz que “o professor deve ser uma referência para os alunos em todos os aspectos. Não basta ser professor, necessário se torna ser educador. Dizia-me, há dias, um professor de sociologia que não conseguia leccionar sem fato e gravata, porque essa imagem, tarde ou cedo, iria repercutir-se nos alunos…” De qualquer modo, Escórcio afirma que “o fracasso do sistema educativo não se deve ao uso ou não de uniformes, apenas esta pode ser mais uma peça de um complexo ‘puzzle’ que poderá potenciar uma melhor escola”.

‘Pressão’ da roupa começa cedo

Daniela Aguiar, presidente da Associação de Pais da Escola Básica Bartolomeu Perestrelo, vê a proposta do PS-Madeira com bons olhos, “já que muitas vezes as desigualdades notam-se precisamente nas roupas que os alunos vestem, porque há crianças que vêm de meios mais desfavorecidos e não têm acesso a determinadas roupas de marca”, acrescenta. O recurso a uniformes faria com que as diferenças se esbatessem. “Aliás era por essa razão que não há muito tempo, o uso de batas era obrigatório nas escolas, mesmo nos níveis de ensino mais avançados”, recorda.

Daniela Aguiar não esconde que a pressão em vestir de determinada forma como um passo para a aceitação num ‘grupo’, começa desde cedo. A presidente da Associação de Pais diz que o filho, que frequentou uma escola privada e usou farda até ao 4º ano, só quando passou para o 5º ano e para uma nova escola é que passou a ligar à roupa e às marcas que veste e que os colegas vestem. A ‘uniformização’ do vestuário, de acordo com Daniela Aguiar, iria contribuir, em última instância para que ao longo da vida, as crianças e jovens dessem “mais importância a questões fundamentais e menos a questões supérfluas”.

A pedido dos pais

No Colégio de Santa Teresinha, depois de alguns anos sem ‘uniformes’, as fardas voltaram a ser instituídas há menos de uma década a pedido dos pais. A directora da escola, irmã Jesuína Santos disse que a ideia surgiu de um grupo de pais de alunos iriam frequentar o 1º Ciclo do Ensino Básico. No seguimento da proposta foi feito um inquérito a todos os pais e a maioria aprovou o uso de uniformes do 1º ao 4º ano.

Mais recentemente, alguns encarregados de educação demonstraram interesse em que a medida fosse alargada até ao 6º ano. Jesuína Santos não coloca de parte a possibilidade, mas ressalva que nenhuma decisão será tomada antes de auscultar todos os pais, como de resto aconteceu aquando da proposta referente ao 1º Ciclo. “Os pais pedem porque muitas vezes as crianças questionam a roupa uns dos outros, e com o recurso às fardas vêm todos de igual e deixa de haver problemas”, refere.

Fardas são “questão acessória”

Para Marília Azevedo, coordenadora do Sindicato de Professores da Madeira (SPM), a questão das fardas é “acessória” e não é fundamental para resolver os problemas de um sistema educativo.

Referindo que actualmente os uniformes estão muito associadas ao ensino privado, a docente vê as fardas mais como um meio de preservação da roupa das crianças “do que propriamente uma forma de esbater desigualdades sociais”. Quanto às batas para os docentes, Marília Azevedo refere que já muitos professores as usam. “Usar ou não farda deve ser um assunto debatido pelas escolas”, acrescentou ainda.

Ana Luísa Correia

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