Autocarro usado por menos de um quarto dos alunos

Diário de Notícias – Madeira

Autocarro usado por menos de um quarto dos alunos
Passe Escolar da ‘HF’ é usado por 4.700/mês: 22% dos alunos do 1.º ciclo ao secundário
Data: 20-11-2009

As aulas já começaram mas não há maneira de o autocarro entrar no programa escolar da maioria dos jovens. Nos últimos quatro anos, a empresa de transportes públicos ‘Horários do Funchal’ vendeu menos 600 passes escolares por mês. A média de 4.700 alunos que usam a camioneta representa apenas 22% da população estudantil matriculada no Funchal, entre o 1.º Ciclo e o Secundário e Profissional.

“Fica muito aquém. Nós estamos a falar de uma faixa etária onde não é expectável que tenha hábitos de mobilidade ligados aos veículos colectivos, a não ser por influência dos próprios pais. Mas, a verdade é que, infelizmente, no ponto de vista da mobilidade, o transporte colectivo não tem sido muito apelativo”, observa Helder Spínola, dirigente da Quercus.

O DIÁRIO tentou apurar a taxa de utilização dos jovens no primeiro mês de aulas, mas essa é uma informação que, explicou a HF, só é disponibilizada no final de cada ano lectivo. Assim, os dados mais recentes na base da companhia sintetizam o ano lectivo 2008/09 e revelam que por mês há uma média de 4.700 utilizadores dos passes escolares, nas carreiras urbanas e interurbanas. Ora, se considerarmos o universo de cerca de 21.500 alunos matriculados nas escolas do Funchal, entre o 1.º Ciclo e o Secundário e Profissional (excluindo-se as crianças da Pré e infantários e os estudantes da UMa) – tidos como potenciais utilizadores – conclui-se que apenas 22% utiliza as facilidades dos transportes públicos da HF.

O título de transporte escolar custa 35,50 euros (mais cinco de emissão do passe) e é válido para toda a rede urbana sem limite de viagens. As 66 carreiras urbanas proporcionam uma boa cobertura no concelho e oferecem horários com uma assiduidade bastante regular. Incentivos a que se juntam os apoios concedidos pelo Governo Regional e pelas Câmaras (vide texto abaixo) aos alunos carenciados e que sugerem uma reflexão sobre a evolução da dinâmica da mobilidade na cidade do Funchal.

Uma questão de mentalidade ou de comodismo? “Nós sabemos que do ponto de vista da marca e do estatuto temos ainda uma dependência muito grande em relação ao veículo individual”, responde Helder Spínola. “Hoje em dia, a maior parte das pessoas têm possibilidades de ter um veículo, onde as marcas, a potência, são decisões que se tomam mas que também põem em causa a qualidade de vida da cidade e o futuro das próximas gerações”.

Poluição dá deu ‘puxão de orelhas’

O ambientalista recorda que a cidade do Funchal já está a acusar a crescente pressão automóvel no centro da cidade, com consequências nefastas para a qualidade do ar.

“A estação de monitorização de São João (acima do Edifício 2000) tem registado valores preocupantes ao nível da existência das chamadas partículas inaláveis, e isso até já deu azo a um aviso da própria Comunidade Europeia”, adverte o dirigente da Quercus. “Claro não é só uma questão de cumprimento da lei, estamos a falar também dos impactos que isso representa na saúde pública em cada um de nós”. E no trânsito.

O tráfego automóvel torna-se verdadeiramente caótico nas artérias mais movimentadas do centro da cidade do Funchal, nas áreas escolares, sobretudo quando a hora de ponta coincide com o toque de entrada e de saída das escolas. Os casos mais complicados acontecem na rotunda da Cruz Vermelha, que serve a via à cota 40. Também na Pena e na Ajuda, o trânsito afrouxa devido às paragens à porta dos estabelecimentos de ensino ali existentes, para os pais deixarem os filhos, alguns até à porta da sala de aulas. Um hábito tolerado mais por uns e protestado por outros ao som das buzinas.

Câmara do Funchal apoia mais de cem: Autarquia dispõe de 16.400 euros para comparticipar transporte a 103 alunos, este ano

A Câmara Municipal do Funchal dispõe de um ‘plafound’ de 16.400 euros inscritos para o ano lectivo 2009/2010. Uma verba que se destina a apoiar 103 alunos, a esmagadora maioria do concelho da capital madeirense, que reside entre 1 e 2 quilómetros do estabelecimento de ensino.

“Um valor irrisório, mas importante”, conforme refere Pedro Calado, vereador com o pelouro das finanças municipais. Este acaba por ser um incentivo ao uso dos transportes colectivos, embora se enquadre mais na política social de apoio.

As câmaras municipais estão incumbidas de providenciar o transporte dos alunos do 1.º Ciclo com carências económicas e que vivam entre 1 e 2 quilómetros do estabelecimento de ensino. Ao Governo Regional cabe a comparticipação dos passes escolares daqueles que residem a mais de 2 quilómetros.

A avaliação e coordenação de todo o processo é centralizado na Direcção Regional de Educação, através dos serviços da Acção Social Escolar. O director da DRE, Gonçalo Araújo, crê que todos os alunos que beneficiam de escalão não desaproveitam a comparticipação nos títulos de transporte.

Não vê razão que justifique a fraca adesão dos alunos aos transportes colectivos de passageiros, a começar pelo preço. “Haver alunos que pagam 100 euros por um passe é uma aldrabice”, diz. Lembra que todos os concelhos têm escolas secundárias e o tecto máximo de pagamento é o equivalente ao passe social. “Esse é o valor de referência”.

Ricardo Duarte Freitas

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