Unidade de dor enfrenta dificuldades

Diário de Notícias – Madeira

Unidade de dor enfrenta dificuldades
Carências ao nível dos recursos humanos e mudanças efectuadas no âmbito dos modelos de trabalho, fazem diminuir a capacidade de resposta da unidade
‘Depressão e Dor Crónica’ foi o tema escolhido para a Semana Europeia de Luta Contra a Dor, que decorre até ao dia 19 de Outubro. As pessoas com dor crónica têm três vezes mais possibilidade de desenvolver uma depressão e vice -versa.
Data: 19-10-2009

A Unidade de Dor do Hospital Central do Funchal (HCF) está actualmente a “tentar ultrapassar algumas dificuldades, nomeadamente em termos da falta de meios humanos”. Na data em que se celebra o Dia Mundial de Luta Contra a Dor, Duarte Correia, médico anestesiologista e responsável pela unidade, não consegue esconder que as carências de meios humanos está a afectar a capacidade de resposta e de “satisfação das necessidades e solicitações crescentes”.

Criada em 1991, a unidade hospitalar desenvolve diariamente actividade no tratamento da dor aguda e crónica, incluindo a analgesia do pós-operatória. Se nos primeiros anos de existência, a unidade fazia pouco mais do que um milhar de intervenções anuais, só no dois últimos anos (2007 e 2008), foram mais de 17 mil os procedimentos, no total anual, abrangendo consultas externas, visitas a internados, visitas domiciliárias e técnicas invasivas.

E embora 2009 ainda não tenha chegado ao fim, a diminuição no número de observações da Unidade de Dor é já notória. De acordo com os dados disponibilizados ao DIÁRIO, entre 1 de Janeiro e 31 de Agosto, realizaram-se apenas 8.508 procedimentos, numa média mensal de 1.064 procedimentos, um número bem mais baixo relativamente à média mensal de observações registada em 2008 (1.479), em 2007 (1.478) e 2006 (1.175).

Para esta diminuição, foi preponderante a falta de médicos formados na área. Apesar da reconhecida falta de anestesiologistas na Região e no país, até ao princípio do ano, a Unidade de Dor do HCF contava com o apoio de três especialistas a tempo inteiro. Actualmente, apenas um médico garante o dia-a-dia do serviço (técnicas, visitas, consultas…). Um dos anestesiologistas ligados à Dor está afastado por razões de saúde e o outro, devido a reformulações no modelo de trabalho, está actualmente a trabalhar preferencialmente noutros sectores hospitalares.

A equipa continua a contar com a colaboração de outros especialistas (Medicina Interna, Psiquiatria, Neurocirurgia, Psicologia, Farmácia) e de quatro profissionais de enfermagem, mas não é suficiente para todas as solicitações. Por enquanto, o principal objectivo da Unidade de Dor é o de não interromper as terapêuticas dos doentes oncológicos e as terapêuticas de opióides. “Tentamos sempre fazer mais do que nos é possível, mas é óbvio que, com a falta de recursos humanos, é difícil manter o mesmo volume de trabalho”, diz o responsável. “Temos de redefinir os nossos objectivos e nos readaptar, e além disso, estamos confiantes de que vamos suprir as carências que afectam a unidade”, afirma Duarte Correia.

Para já, a garantia que dá aos doentes é de que a equipa da Unidade de Dor vai continuar a trabalhar com a dedicação de sempre, mantendo o compromisso existente com os utentes e com a instituição.

Dor e depressão de ‘mãos dadas’

A Semana Europeia de Luta Contra a Dor incidiu este ano sobre a ligação entre ‘Depressão e Dor Crónica’.

Emanuel Gomes, psicólogo clínico que trabalha há já mais de uma década na Unidade de Dor do HCF, explica que as pessoas que sofrem de dor crónica (sobretudo a não oncológica), ficam deprimidas não só pelos sintomas físicos de dor, mas pelas incapacidades provocadas que têm também repercussões no contexto familiar, social e laboral. Também nas famílias onde existe um caso de dor crónica é necessário fazer o despiste de síndromes depressivos, acrescenta o profissional. “Por exemplo, no caso de novos doentes, são chamados os filhos para assumir funções para os quais não estão minimamente preparados e isso pode causar problemas nos filhos”. É por essa razão que na Unidade de Dor, a intervenção não se limita aos pacientes mas abrange também aqueles que os rodeiam, seja em casa, seja nas unidades de saúde onde são tratados e acompanhados. “Existe uma preocupação muito grande em apoiar os técnicos”, acrescenta Emanuel Gomes. “A dor e as situações mais graves onde há o risco de morte, são especialmente desgastantes para os profissionais de saúde”.

Daí que o fenómeno do ‘burn-out’ (esgotamento), seja uma situação mais ou menos comum entre os profissionais de saúde. “O que tem acontecido é que, cada vez mais, os técnicos vêm aqui à Unidade colocar questões sobre estes temas”, revela o psicólogo. “O sofrimento muitas vezes é tão grande que os profissionais incorrem num ‘desligamento’ emocional para evitar o seu próprio sofrimento interno”.

É por todas estas razões que Emanuel Gomes e Duarte Correia admitem que não é exagero afirmar que dor e depressão andam muitas vezes de ‘mãos dadas’. “Muitas vezes confundem-se”, explicam ao DIÁRIO. “Às vezes é difícil diagnosticar e saber quando a dor está a aumentar a depressão ou vice versa”.

E são sobretudo os doentes com dor não oncológica que mais têm propensão para os sintomas depressivos. Quando há um cancro, os doentes e familiares compreendem melhor a situação, explica o psicólogo. Já nos casos em que a causa da dor é outra, as pessoas mais próximas do doente podem duvidar da intensidade da dor e o doente acaba por se isolar. “É por isso que é tão importante trabalhar também as famílias para que percebam que a dor intensa não acontece apenas nas situações oncológicas”, afirma.

Emanuel Gomes refere ainda que pode haver casos de dor psicossomática, mas que para afirmar a certeza de uma situação do género, é necessário haver uma investigação profunda e um diagnóstico final.

Daí que Duarte Correia recomende que quando alguém sentir uma dor persistente, em vez de se auto-medicar, deverá recorrer o mais rapidamente possível ao médico assistente, por forma a que a situação seja diagnosticada e tratada. “Não devemos atribuir logo a dor a fenómenos mental”, alerta o responsável pela unidade hospitalar.

O médico refere ainda que os tratamentos para a dor crónica estão constantemente em evolução e há hoje tratamentos extremamente eficazes, quer em termos de fármacos, quer no que concerne técnicas mais invasivas (como a colocação de implantes para a analgesia), também desenvolvidas no HCF. O objectivo é sempre o de contribuir para a melhoria da qualidade de vida dos utentes.

Crescer para um centro multidisciplinar no futuro?

Com a criação do novo Programa Nacional de Controlo da Dor, em Maio de 2008, ficaram definidas novas normas de organização e classificação das Unidades de Dor Crónica. Segundo Duarte Correia, actualmente a unidade do Hospital Central do Funchal, devido à equipa de profissionais que lá trabalham e às várias áreas abrangidas, enquadra-se já no grupo das ‘Unidades Multidisciplinares de Dor’. Porém, o objectivo é que a unidade do HCF possa mesmo atingir o patamar desejado de um ‘Centro Multidisciplinar de Dor’. Para tal, as dificuldades em termos de recursos humanos terão mesmo de ser ultrapassadas e, como acrescenta o responsável, algumas mudanças deverão ser implementadas em termos do actual modelo de trabalho, do espaço físico de funcionamento, entre outros aspectos.

Evoluindo para um Centro, a unidade terá de ser cada vez mais transversal a todo o Serviço de Saúde da Região, recorrendo a vários consultores (médicos e técnicos de várias especialidades) e utilizando também as potencialidades regionais no âmbito do ensino da Medicina. “O importante é que se fuja da tentação de criar um serviço megalómano”, alerta o médico anestesiologista.

Duarte Correia diz também que outro dos objectivos futuros passa pela aposta nos Cuidados Paliativos.

Ana Luísa Correia

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