Serviço de Oncologia a funcionar no limite
Serviço de Oncologia a funcionar no limite
O Hospital não tem médicos, meios e condições para atender as centenas de doentes oncológicos que passam por dia no serviço de Hemato-Oncologia
Data: 14-09-2009
A vida de Maria deu uma volta quando o marido ficou doente e os médicos descobriram que tinha um cancro na língua. Os últimos meses têm sido um fadário de consultas, tratamentos, exames e longas esperas nas Urgências, no serviço de Hemato-Oncologia e no Centro de Radioterapia. O Hospital Central do Funchal tem dois médicos oncologistas e não consegue dar resposta a todos os pedidos de ecografias e tac’s. Os utentes, como o marido de Maria, são encaminhados para o privado e têm de pagar. Maria, que vive no Estreito de Câmara de Lobos e é empregada doméstica no Funchal, explica que não é só a doença, é mais do que isso. E, de todos os sítios por onde passou nos últimos tempos, guarda boa memória do Centro de Radioterapia em Santa Rita. Quanto ao resto, suspira, com as lágrimas a bailar nos olhos. “Se não fosse a compreensão das senhoras com quem trabalho já não tinha emprego”.
O marido, com 59 anos e um cancro em estado avançado, não tem autonomia para ir aos tratamentos e consultas sozinho. E, no Hospital, no serviço de Hemato-Oncologia espera-se muito, muitas horas. Além de perder o dia para os tratamentos, o estado clínico de um doente oncológico é sempre imprevisível, sobretudo após os tratamentos de quimioterapia e radioterapia. “Não o posso deixar em casa, com dores, dificuldades em engolir. Temos que o levar às Urgências, mas não pode ser a Empresa de Transportes de Doentes a levar. E de camioneta também não pode ser, o meu marido não tem condições para aguentar a viagem e subir a ladeira entre a paragem e a minha casa. Temos de chamar um táxi e pagar 30 euros”. Chegados às Urgências é preciso ter paciência para esperar, o atendimento nem sempre é dos melhores. Com a confusão até já lhe marcaram uma consulta para os dentes quando o problema é na língua.
Com poucas posses – Maria tem uma casa, mas deixa claro que ninguém come paredes – esta mulher do Estreito de Câmara de Lobos desespera agora com os novos exames que os médicos prescreveram, duas ecografias que custaram 40 e 45 euros em unidades privadas. “É preciso dinheiro e tempo. É como digo, se não fosse a compreensão das senhoras para quem trabalho, já não tinha como me governar”.
A história de Maria é semelhante à de muitos familiares de doentes oncológicos que, quando recebem o diagnóstico de cancro, têm de aprender a lidar com a doença e com um sistema que tem falta de condições, de médicos e meios para os atender. O próprio director clínico do Serviço de Saúde da Região admite que é assim, embora lembre que estão previstas obras para o serviço de Hemato-Oncologia.
“As obras para alargar o serviço à área do antigo laboratório de análises deverão começar em Outubro. É nossa intenção melhorar a Hemato-Oncologia, abrir mais salas, com melhores condições e já com uma unidade de Terapia da Dor”. Segundo Miguel Ferreira, as obras estão dependentes dos procedimentos burocráticos, ainda assim espera-se que avancem em Outubro e depressa. “De facto, neste momento, aquele serviço não tem condições”. Falta um espaço adequado e faltam médicos, mas esse é o mal da Região e do País.
Centenas de pessoas passam todos os dias pelo serviço de Oncologia, mas médicos especialistas a trabalhar só há dois. “Tínhamos esperança que viesse mais um, mas acabou por não se concretizar. O serviço tem dois oncologistas e dois hematologistas. É natural que o tempo de espera seja grande. As vagas de Medicina estiveram trancadas tantos anos e o resultado é este. Agora apenas podemos esperar que se formem e venham para a Madeira”. A escassez no atendimento aos doentes oncológicos não se fica pela falta de médicos. A evolução do cancro leva-os, muitas vezes, a necessitar de mais exames de diagnóstico, mais tac’s e ecografias. E, embora o Hospital se prepare para instalar um novo aparelho de tac’s e dois de ecografias, a verdade é que não tem maneira de responder a todas as solicitações. A solução é encaminhar, com as conhecidas requisições verdes, para as unidades privadas. E, nessas, é preciso pagar, mesmo que a preços mais reduzidos.
Marta Caires
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