Obras à pressa

Diário de Notícias – Madeira

Obras à pressa incomodam e saem mais caras
Para cumprir prazos, os empreiteiros socorrem-se das horas extra. Em tempo de crise, os trabalhadores agradecem mas obras a todo o gás têm os seus riscos
Data: 23-09-2009

Auto-betoneiras, retro-escavadorras, cilindros, latas de tinta. No Amparo, ultimam-se as obras da nova ligação entre a Estrada Monumental e a Nazaré. As máquinas estão a laborar em contra-relógio para ter concluída a estrada da saída Oeste entre a rotunda da ASSICOM e a Cota 200, provavelmente antes das eleições autárquicas.

A Avenida do Amparo (que contempla um jardim público com cerca de 15 mil m2, mas que só deverá estar pronto dentro de um ano) é fundamental para libertar o tráfego da zona oeste da cidade do Funchal, mas a conclusão dos trabalhos tem dado ‘dores de cabeça’ aos moradores. Depois das dificuldades inerentes às expropriações, os trabalhos avançam a todo o gás.

De Domingo para Segunda-feira, os trabalhos até tiraram o sono à população dos Piornais. Uma situação pontual. É que, não há registo de que a Secretaria Regional dos Recursos Humanos, através da Direcção Regional de Trabalho tenha autorizado o empreiteiro a laborar em turnos (período de laboração com amplitude superior aos limites normais) para cumprir com o prazo de execução da obra. Nem que haja licença especial de ruído emitida pela Câmara, caso se aplicasse à situação.

A acessibilidade vertical contempla quatro faixas de rodagem (duas ascendentes e duas descendentes), sete rotundas, estacionamentos e passeios. A obra é da responsabilidade da Secretaria do Equipamento Social, através da empresa ‘RAMEDM -Estradas da Madeira, S.A.’, e vai custar na totalidade cerca de 21 milhões de euros, onde se inclui os nove milhões de euros para a construção do primeiro troço que já está em funcionamento.

Além da questão do ruído numa zona densamente povoada, a laboração obriga a horas extra para ter a obra pronta dentro dos prazos (a oposição fala em calendários eleitorais) com os custos daí decorrentes.

E quando há obras há riscos de acidentes como o que se passou anteontem à noite. Verificou-se um ‘apagão’ na zona oeste do Funchal, entre os Piornais e a Central da Vitória, entre as 20 e as 21 h 30. A Empresa ‘Electricidade da Madeira’ negou quaisquer responsabilidades no ‘apagão’. A avaria terá sido causada na sequência de uma manobra indevidamente executada por uma firma instaladora, numa obra em fase final de execução, na zona dos Piornais.

O problema causou vários incómodos à população da zona, bem como a estabelecimentos hoteleiros e comerciais situados na zona marginal entre os Piornais e a central da Vitória.

Ribeiro “estranguladíssimo” e conspurcado na Praia Formosa

Mas a obra da Avenida do Amparo traz outro problema, a jusante. O ribeiro que existe soterrado na Praia Formosa, cuja secção se vazão já é exígua, será sobrrecarregado de águas pluviais. A Câmara do Funchal (CMF) está ciente do problema e, à cautela, mandou uma brigada limpar o ribeiro.

Contactado pelo DIÁRIO, o vereador do ambiente da CMF, Henrique Costa Neves admitiu que a Avenida do Amparo vá sobrecarregar de águas o “estranguladíssimo” ribeiro. Provisoriamente, a CMF demoliu uma parede da antiga ‘Shell’, não vá o ribeiro transbordar.

A solução definitiva, segundo Costa Neves, passa por “renaturalizar” o ribeiro. Ou seja, voltar a colocá-lo ‘a céu aberto’, o que só deverá acontecer com a execução do plano de urbanização da Praia Formosa.

Sobre as consequências do ‘apagão’, Costa Neves disse que não houve problemas nas cinco estações elevatórias de saneamento básico da zona oeste da cidade. O autarca desconhece se houve descargas poluentes por parte de unidades hoteleiras por causa do ‘apagão’. O que sabe é que, o Departamento que tutela não detectou nenhuma anomalia decorrente do ‘apagão’ e que até as unidades hoteleiras, têm poços alternativos em caso de avaria dos sistemas de bombagem dos esgotos para a rede pública.

No mais, Costa Neves disse que a CMF não tem recebido queixas por causa do ruído causado pelas obras. Sabe que elas causam sempre transtornos e dificuldades de mobilidade a quem circula de carro e a pé mas apelou à compreensão. “As obras são passageiras”, disse.

Como ‘formiguinhas’ no Ribeiro Seco (acesso ao porto)

Na obra de acesso ao porto do Funchal, em todo o vale do Ribeiro Seco, o ritmo de trabalho também é frenético. Em várias frentes, os trabalhadores parecem ‘formiguinhas’ para que tudo esteja pronto a tempo e horas. As obras de construção da ligação em via expresso ao porto do Funchal, que tiveram início em Outubro de 2007 estão a ser executados entre a Estrada da Liberdade (saída oeste), na zona da Levada do Cavalo, e a Rotunda da Pontinha.

A ligação em via expresso ao Porto do Funchal terá uma extensão total de cerca de 1.446 metros. A nova ligação foi adjudicada por cerca de 28 milhões de euros è empresa Tecnovia. O traçado inicia-se com um túnel com cerca de 670 metros de comprimento, que passa sob a zona urbana envolvente da Avenida do Infante e Luís de Camões e entre os hotéis Savoy e Casino Park. Percorre depois uma extensa curva para poente e sai no vale do Ribeiro Seco a cerca de 70 metros do emboquilhamento do actual túnel da rua Eng. Ornelas Camacho. Trata-se do maior túnel urbano do Funchal e terá uma plataforma de estrada com nove metros de largura (duas vias com 3,50 metros cada).

Casos fatais na construção civil em vésperas de eleições

Em 2007, antes das eleições Regionais antecipadas de 6 de Maio, verificaram-se dois acidentes mortais em obras públicas. A morte de um trabalhador da construção civil, em São Vicente, a 3 de Maio de 2007. Era pedreiro de profissão há mais de 20 anos e morreu vítima de uma queda de uma altura superior a oito metros (deslizando desamparado sobre um tubo de PVC utilizado para canalizar betão) na obra onde se encontrava a laborar, na empreitada de canalização da Ribeira de São Vicente.

A 27 de Abril de 2007, um trabalhador teve morte imediata ao ser esmagado por um cilindro de compactação, curiosamente numa rotunda das obras do novo troço do Caminho do Amparo, na Nazaré, em São Martinho.

Apelo ao equilíbrio

Contactado pelo DIÁRIO, o presidente do Sindicato da Construção Civil, Diamantino Alturas disse que os trabalhadores agradecem a possibilidade de haver horas extra em tempo de crise. Até porque o contrato que está subjacente a essas horas, na Madeira, é dos mais vantajosos do país. Actualmente há obras que decorrem ao Sábado e até ao Domingo.

Contudo, o sindicalista apela ao equilíbrio entre o pecúlio extra e a necessidade de descanso dos trabalhadores. Lembra os acidentes fatais que se registaram em obras públicas em períodos pré-eleitorais. “Muitas horas seguidas sem descanso, por vezes, pode ser fatal”, disse. “O problema é que o trabalhador pensa sempre que, a ele, nunca lhe acontece nada”, ilustrou.

Em todo o caso, Alturas admite que, actualmente, o ritmo de obras públicas não é comparável ao que se verificou há alguns anos. O que é certo é que “quando se trabalha com prazos muito apertados aumenta o risco de acidentes”, disse.

Enquanto cidadão, gostaria de ver por parte do Governo uma outra política de obras públicas. Uma política que não encarecesse as obras públicas com horas extras e trabalhos a mais e cujo ritmo não fosse tão voraz. É que, se é certo que há que aproveitar fundos comunitários, por outro lado, há que zelar pela sustentabilidade do sector da construção civil com obras planeadas, cadenciadas e não à pressa.

Emanuel Silva

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