Pela Madeira Dentro – Sé
P’la Madeira dentro
Defeitos e virtudes da Freguesia mais urbana
Por entre a agonia do comércio tradicional e alguns dramas sociais, a Sé apresenta-se como uma área urbana limpa e aprazível para viver e trabalhar.
Data: 20-08-2009
A freguesia mais urbana do concelho do Funchal vive, em maior ou menor expressão, as virtudes e os defeitos típicos dos centros urbanos. Os que ganham a vida na freguesia da Sé e que superam largamente a população residente (2.148 de acordo com os censos de 2001) não escondem alguma preocupação com o futuro do comércio tradicional no centro da cidade e com alguns problemas sociais, como os sem-abrigo e a marginalidade associada à toxicodependência, embora, por outro lado, também não deixem de reconhecer que se vive bem na baixa funchalense, uma centralidade limpa e, apesar de tudo, ainda relativamente segura.
Manuel Catanho é um profundo conhecedor da realidade funchalense. Há 27 anos que tem restaurante estabelecido na Rua da Queimada de Cima – “o primeiro da nova geração de comércio nesta zona”, sublinha. Orgulha-se, de resto, de ter contribuído com o seu negócio para mudar a má fama que, no passado, caracterizava aquele quarteirão.
“Esta é uma das ruas que movimenta mais pessoas e comércio nesta centralidade”, aponta. Apesar de todos os inconvenientes advindos do encerramento de algumas artérias e dos problemas de estacionamentos na cidade, situações que, na sua opinião, “ajudam a afastar as pessoas do centro”.
“Há ruas que foram bem fechadas, mas também se fechou muitas que agora deviam ser reabertas”, sustenta Manuel Catanho. Até porque, mesmo com todos os efeitos negativos que o trânsito acarreta, “sem ele o comércio não sobrevive”.
Segundo este empresário da restauração, para trazer maior movimento ao centro seria igualmente importante reduzir as horas de estacionamento pago nas áreas azuis. “O parqueamento azul devia funcionar apenas entre as 10 e as 18 horas e ser livre nos sábados”, defende. Outra alteração que sugere é o próprio horário do comércio, “que não tem de abrir todo ao mesmo tempo”. Na opinião de Manuel Catanho, “os estabelecimentos de primeira necessidade abririam às 8 horas, os outros passavam para as 10″, o que “evitava que a cidade ‘morresse’ a partir das sete da tarde”.
O aumento do número de indigentes a dormir nas ruas é outro problema que afecta, muito em particular, a freguesia da Sé. Manuel Catanho considera “prioritário” a resolução deste problema social.
“É uma situação que tem de ser travada com muita rapidez, porque está a deixar uma imagem muito negativa para o turismo”, alerta, lembrando que numa cidade pequena como o Funchal “o problema ainda dá mais nas vistas”.
Falta policiamento à noite
Os assaltos a estabelecimentos, na maioria dos casos associados à droga, são outro problema que afectam a baixa funchalense. Ainda recentemente, o alvo foi uma perfumaria na referida Rua da Queimada de Cima. O restaurante de Manuel Catanho também já foi alvo de furto por diversas vezes. “De vez em quando a polícia consegue travá-los, mas depois acabam por voltar à carga”, admite. No entanto, considera que o Funchal “ainda é uma cidade segura”.
José Azevedo, proprietário de uma loja de comércio na mesma rua, tem uma opinião um pouco diferente. “Há alguma insegurança e, além disso, o policiamento não é feito todos os dias”, expressa, considerando que o principal problema reside durante a noite.
“O que se vê de noite são ratazanas que vêm dos esgotos para a rua”, ironiza, queixando-se ainda do cheiro nauseabundo que, volta e meia, sai sarjetas acima.
Com tudo isto, não deixa de admitir que a Rua da Queimada de Cima é, actualmente, “umas das melhores para o comércio”, sobretudo porque se tira partido da existência de muitos restaurantes nas redondezas. Em claro contraste, por exemplo, com a vizinha Rua João Tavira, onde um grande número de lojas de comércio tradicional foram fechando gradualmente as portas.
Ruas fechadas complicam
Um dos mais antigos comerciantes da Rua do Sabão teme que, com o estado actual das coisas, o comércio tradicional esteja em risco no centro do Funchal. Especialmente quando tem de concorrer com centros comerciais que oferecem estacionamento.
“Isto aqui é um problema, porque as ruas estão quase todas fechadas, não há estacionamentos perto e, claro, isso acaba por afastar os clientes”, vinca o empresário. No caso da sua loja, admite, “o que nos vale são os clientes mais antigos”, que apesar de tudo se têm mantido fiéis. “Como vê, estamos a meio da tarde e a rua está praticamente parada”, atira, exemplificando assim o mau momento por que passa o comércio da zona.
Um pouco acima, na Rua João Gago, um outro empresário partilha das preocupações sobre o futuro do comércio tradicional. Luís Quintal, um dos sócios-gerentes de duas lojas de pronto-a-vestir, assume que em cerca de duas décadas de actividade “nunca houve uma fase tão negativa” para o negócio. A crise, admite, é a grande responsável, embora não seja a única.
“É certo que o movimento dos carros causa transtorno, mas fechar as ruas ao trânsito é negativo para o negócio”, refere, defendendo que “se as pessoas deixam de passar num determinado local, acabam por esquecer as lojas que ali existem”. Mesmo que, por ali, existam algumas lojas de referência e com clientela fiel. “É isso que nos vai salvando”, sublinha aquele empresário.
Nélio Gomes
Faltam 52 dias para as Eleições Autárquicas (11 de Outubro de 2009)
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