Pela Madeira Dentro – São Pedro
Problemas no Bairro do Hospital contrastam com desenvolvimento da Achada.
Data: 16-08-2009
Angelina Baeta tem de subir 119 degraus para chegar a casa, situada no 7.º andar do bloco 14 do Bairro do Hospital. Há cerca de dois meses que o elevador que serve aquele bloco habitacional se encontra avariado – o outro, lembra aquela moradora, parou no tempo há aproximadamente duas décadas.
Esta doméstica de 53 anos até nem é quem mais sofre com o atraso na reparação; bem pior é a situação dos idosos e dos doentes que ali vivem. “Tenho uma vizinha de 92 anos que vive no 6.º andar e que desde que o elevador avariou não consegue sair de casa”, exemplifica. O que lhe vale, vinca Angelina Baeta, é a ajuda de uma outra vizinha, que garante a compra de todos os bens essenciais.
Os elevadores são um dos vários problemas que afectam alguns blocos daquele aglomerado populacional situado bem perto do Hospital Central do Funchal. As fechaduras das portas de acesso a alguns blocos, por exemplo, estão rebentadas – nalguns casos deliberadamente – franqueando o acesso a pessoas estranhas aos edifícios.
Angelina Baeta denuncia casos de jovens a dormir nos pequenos pátios interiores dos blocos, em condições de higiene sub-humanas e até urinando no interior dos edifícios. “Ninguém aguenta o cheiro”, sublinha, ao mesmo tempo que pede a intervenção dos Investimentos Habitacionais da Madeira. “O IHM tem obrigação de resolver estes problemas; não é justo que a maioria dos moradores, que cumprem com as regras, continuem a pagar os pecados feitos pelos outros”, remata.
Depois, há a droga. E os assaltos que surgem por arrastamento e põem a ‘cabeça em água’ aos comerciantes da zona. João (nome fictício), um outro morador do bairro, assegura que a grande maioria dos que ali moram “é gente de bem”.
O problema, vinca, tem a ver com “um grupo de pessoas que põe em causa o bom nome do bairro”. Os tais que estão associados à droga, aos assaltos e à violência que de vez em quando ali eclode, mais os que revelam falta de civismo. E até dá um exemplo: “O IHM arranjou uma fechadura e duas horas depois já a tinham arrebentado.”.
Achada ainda com faltas
Ismael Camacho vive na Achada há quase 50 anos. Naturalmente, acompanhou toda a grande transformação registada na zona. Onde há restaurantes, tabacarias, cafés, padaria e até duas creches. “Não tem nada a ver com aquilo que era, agora temos quase tudo aqui em cima”, revela, admitindo que se vive muito bem ali. “Mora aqui muita gente, mas isto é sossegado e não há muita ladroagem”, acrescenta.
“O que falta? Olhe, o supermercado fechou e agora temos mesmo de ir ao Funchal”, aponta.
O supermercado é, efectivamente, uma das grandes lacunas daquela zona alta da freguesia de São Pedro. Regiane Santos, funcionária de um estabelecimento na Achada, confirma que esse é uma das principais queixas que as clientes lhe confidenciam.
“Especialmente as pessoa idosas lamentam-se por não haver um supermercado e uma farmácia”, adianta. Além do mais, já não há transportes públicos na Calçada do Pico que permitam a deslocação até ao mini-mercado existente junto ao Museu das Cruzes.
Comércio da Carreira a definhar
Na zona baixa da freguesia, na Rua da Carreira, o movimento é cada vez menor. “A pior coisa que fizeram foi fechar a rua ao trânsito, foi a partir daí que o movimento fugiu”, defende Gorete Sousa, que há 17 anos é funcionária de um estabelecimento de artigos eléctricos. Uma das poucas lojas antigas da rua (tem as portas abertas há cerca de 75 anos) que resiste estoicamente à crise que se alastra no comércio tradicional.
“Temos clientes habituais, que cá vêm há muitos anos, mas também estamos a sofrer com a crise”, admite Gorete Sousa. Mas nada que se compare com o que sucedeu com as lojas vizinhas. “Está tudo a fechar”, remata.
Nélio Gomes
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