Pela Madeira Dentro – São Gonçalo

Diário de Notícias Madeira

P’la Madeira dentro
São Gonçalo (des)espera por mais serviços
Numa freguesia onde falta quase tudo, o rol de aspirações da população é extenso e começa precisamente com o prometido centro de saúde.
Data: 12-08-2009

“Esta é, de certeza, a freguesia do Funchal onde faltam mais coisas”. A constatação de Paulina Silva, funcionária da farmácia situada ali mesmo defronte da igreja paroquial, sintetiza o pensamento de quem mora e trabalha em São Gonçalo. Farmácia que, diga-se, conjuntamente com a estação dos correios e umas quantas mercearias tradicionais, mais alguns restaurantes e cafés, praticamente resumem a oferta de serviços de primeira necessidade à população. E que acaba por justificar o escasso movimento na zona que, supostamente, deveria funcionar como a centralidade da freguesia.

“É mais fácil as pessoas irem ao Funchal para fazerem a sua vida”, acentua Paulina Silva, lembrando, por exemplo, que não existe um supermercado de dimensões apreciáveis nos arredores. “O hipermercado mais perto está na Cancela e quando o multibanco não funciona é lá que as pessoas têm de deslocar-se”, acrescenta, lembrando que em São Gonçalo nem um mero jardim público existe para as pessoas poderem passar o tempo.

De um modo geral, a população considera que faz falta investimento na freguesia. Público e privado, até porque ninguém ignora que uma coisa leva à outra. É certo que já existe uma creche e um centro de dia para idosos, obras que resultam do investimento público, mas continua a faltar a principal aspiração dos habitantes: o centro de saúde há tanto tempo prometido.

Margarida do Rosário é uma das muitas vozes que se levantam para reivindicar essa infra-estrutura de saúde. “Aos anos que se fala nisso”, exclama esta mulher de 64 anos, indicando até o local para onde está projectada a edificação. “Claro que era bom para quem mora aqui em cima, poupava-se nas deslocações ao Funchal”, prossegue, aludindo ao facto de o atendimento dos moradores da freguesia estar adstrito ao Centro de Saúde do Bom Jesus.

Enquanto retempera energias à sombra das árvores paralelas à igreja, aquela reformada da hotelaria vai enumerando mais algumas lacunas no centro da freguesia. A começar pelos sanitários públicos: “Fecharam as casas de banho e nesse espaço fizeram a sede dos escuteiros”, explica. Além disso, também pede um posto policial, mesmo que reconheça que as rondas efectuadas frequentemente pela polícia tenham uma função dissuasória junto dos marginais. “Já houve mais assaltos por aqui”, aponta. E quanto à droga, encolhe os ombros, “é coisa que existe em todo o lado, mas por aqui também já foi pior”.

No centro de São Gonçalo, a única caixa multibanco existente funciona num restaurante. Mas muitas vezes não tem dinheiro disponível. E ainda funciona, sublinhe-se, mercê da boa vontade do proprietário, um ex-emigrante na Venezuela.

Agostinho Abreu ‘herdou’ do anterior proprietário a caixa multibanco instalada na parede do restaurante. Mas não ganha nada com isso – e até assume o pagamento da electricidade consumida pela caixa. “Deixo-a ali para bem da população”, esclarece.

O que o chateia é que os utentes revelem falta de civismo: “Urinam no recanto, há dias vomitaram no chão e até fraldas usadas já deitaram no recipiente dos papéis”, aponta. Actos que, avisa, não vai tolerar mais, a bem da boa imagem do seu estabelecimento. Em último caso, dará ordem à instituição bancária para a retirada da caixa multibanco da sua propriedade.

Bairro com os dias contados

À sombras das árvores do pequeno largo existente à entrada do Bairro de São Gonçalo, um grupo de homens protege-se do intenso calor. À chegada do repórter, a conversa rapidamente incide sobre as condições de habitabilidade do bairro – ou mais concretamente sobre a falta delas. Alguns, porém, recusam a identificação.

“As casas estão todas degradadas”, esclarece Leandro Freitas, um reformado de 65 anos, 32 dos quais vividos naquele bairro já parcialmente desactivado. “Alguns casais já foram para outros lados, mas ainda há umas 20 famílias a morar aqui”, explica, manifestando a sua convicção de que o realojamento dos que habitam na zona Este “ainda vai demorar uns bons tempos”.

No caso da sua família, a promessa que lhe foi feita é de que será transferida para as habitações que serão construídas na zona já desactivada e que, futuramente, será alvo de demolição. “O que não quero é que me mandem para a Nazaré”, vinca com determinação, temendo os problemas de desenraizamento.

A esposa, Ana Freitas, é ainda mais precisa nas suas condições para sair. Também não quer ser mandada para um outro bairro social, mas mesmo ficando quer evitar a má vizinhança. “Se for para viver ao lado de duas ou três pessoas daqui, eu prefiro continuar onde estou”, sublinha.

Mas a verdade é que a casa precisa mesmo de obras. O chão está degradado, obrigando frequentemente à deslocação de móveis, mas também o futuro do bairro não recomenda que se façam grandes melhoramentos. “Demos um jeito nos tectos, que era o que estava pior, mas não fizemos mais nada porque nos disseram que era dinheiro perdido, porque mais dia menos dia isto vem tudo abaixo”, explica Ana Freitas.

A rede de esgotos é outro problema que afecta o bairro e as zonas circundantes. “De vez em quando os esgotos entopem e sai tudo cá para fora”, explica um outro morador, cansado de reclamar uma solução definitiva para o problema.

“Quando a porcaria chega lá abaixo e os responsáveis da escola reclamam, eles vêm desentupir; mas depois volta tudo ao mesmo”, acusa. O problema, acentua, está na inexistência do motor de bombeamento dos esgotos. “As caixas estão feitas, o motor até chegou a vir para aqui, mas nunca chegou a funcionar – e entretanto não se sabe aonde foi parar”, remata.

Nélio Gomes

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