Pela Madeira Dentro – Santo António
A maior freguesia do Funchal é uma mistura de bairros sociais, zonas altas rurais e áreas residenciais urbanas. Em Santo António há de tudo.
Data: 13-08-2009
Quem vive no alto, no Caminho do Trapiche e acima dos pilares da futura Cota 500, queixa-se da vereda de 135 degraus; mais abaixo, perto do cemitério, os moradores do bairro de pré-fabricados da Quinta das Freiras sonham com uma casa que não esteja podre. Na Madalena, a área residencial nova, só falta um ginásio para ter tudo mesmo à mão. Os três sítios espelham a realidade de contrastes de Santo António onde, segundo os Censos de 2001, vivem 21.931 pessoas.
Atrás do cemitério da freguesia, escondidas por um muro alto, umas dezenas de famílias vivem há 30 anos nos pré-fabricados do bairro da Quinta das Freiras. As canalizações, as coberturas e as paredes exteriores já cederam, mas os moradores têm dado o jeito sem ouvir o que dizem os fiscais da Câmara. Há anexos de vários materiais cobertos com folhas de zinco, com telha ou uma laje.
“Tivemos que fazer isto, fomos pedir à Câmara, mas não tivemos autorização. Dizem há uns sete anos que isto é tudo para rebentar”. Cansado de esperar, Roberto Nuno e o irmão juntaram dinheiro, força de trabalho e, em poucos dias, fizeram uns acrescentos para instalar as famílias. “Agora que está feito o fiscal não pode mexer”.
No bairro falta dinheiro, mas não a iniciativa. Joaquim Sousa, retornado de Angola, mostra como construiu dois anexos no quintal da cunhada. O mais antigo tem 20 anos, o mais recente foi feito entre Outubro e Novembro. “É tudo clandestino, agora só falta pintar”. E, Raul Rodrigues, vizinho, explica como tem arranjado a casa à revelia do município. “Era isto ou ficar com uma casa toda podre. Tenho feito aos bocadinhos, conforme vou ganhando que da Câmara não veio nada, só a renda de 3,45 euros. Estão sempre a dizer que isto é para rebentar”.
Os pré-fabricados estão velhos, aguentam-se com as obras dos moradores que, de queixas, só têm das casas. O bairro é um dos muitos de habitação social da freguesia e também se diz que ali se consome e trafica droga, sobretudo à noite, no redondo onde os carros dão a volta para sair do bairro. Às vezes, aparece a polícia, mas os vizinhos não se queixam de assaltos, se roubam é noutra zona.
Santo António, a maior freguesia da Madeira em área e em população, há muito que deixou de ser uma periferia do centro do Funchal, rural, pacata e com uma população dispersa. Nos últimos 30 anos, realojou milhares de pessoas nos bairros sociais da Quinta Falcão, Ribeira Grande, Pico dos Barcelos, Romeiras, Quinta Josefina e Quinta das Freiras.
135 degraus na vereda
O Caminho do Trapiche sobe até às últimas casas, mesmo acima dos pilares da futura Cota 500. As moradias – nem de todas da melhor arquitectura – entram pela serra, rodeadas de eucaliptos e pinheiros. A Vereda do Camacho corta por hortas, há couves e semilhas plantadas, ouve-se um galo a cantar na capoeira. Não fosse o nevoeiro que desce da serra, a humidade e o frio, o cenário não seria dos piores, mas no Caminho do Trapiche as aparências enganam.
Maria, que vive ali desde sempre, sabe quanto custa descer e subir todos os dias 135 degraus. “Imagine como é difícil levar uma garrafa de gás ou andar com uma criança ao colo. E o pior ainda é com minha sogra, a casa fica mais acima, para ela, que é doente, são 145 degraus. Outro dia, tivemos que chamar a ambulância e os bombeiros trouxeram-na a pé até metade da vereda. Só a levaram de maca depois de reclamarmos”.
O estado das veredas é, de facto, a principal preocupação de quem vive ali, entre a Barreira e o Caminho do Trapiche. “Já prometeram uma estrada, o sr. Bruno Pereira, mas não sei quando começam”. Enquanto não começa, tudo se faz à força de braços na Vereda do Camacho e na Vereda do Ribeiro Pereiro. As compras, as garrafas de gás, o transporte de doentes e o material para construir uma casa.
“Isto já foi pior. Antigamente, quando o esgoto corria para a levada, vinham muitas vezes os senhores dos partidos”. A Câmara levou tempo, mas lançou a rede de saneamento básico e os ‘horários’ chegam mesmo até ao fim, só não entram pelas veredas. Há uns quantos cafés, mais ou menos improvisados onde os homens que ainda trabalham a terra aparecem de foice e barrete de orelhas.
Até Maria, para ter semilhas para casa, arrendou um bocado de terra para plantar uma horta. “O que dá mais é semilhas, antes havia couves e, na altura dos espigos, via-se isto tudo florido, mas o tempo está mudado, agora dá um bicho verde nas couves, não há maneira de ter espigos”. O clima acima da Cota 500 não é bom, nem para as couves, nem para quem sofre de asma e tem alergias. Como é o caso de Maria e da neta.
Madalena: outro mundo
Miguel Bettencourt toma café numa das esplanadas da Madalena, a nova área residencial de Santo António. Há seis meses que vive ali, a sua realidade não tem relação aparente com a dos bairros sociais ou das zonas altas. De facto, é a custo que se lembra que, para ter tudo mesmo à mão, só falta abrir um ginásio nas redondezas.
“Isto aqui é bom, tem cafés, supermercado, restaurantes, cabeleireiro e está para abrir uma farmácia. Podemos andar a pé porque o terreno é plano e em 20 minutos estamos no centro. O Centro de Saúde é perto e, mesmo quem não tem carro, tem autocarros sempre a circular”. A vida social também é agradável, há muito movimento de manhã e à tarde, no regresso dos empregos. “As pessoas conversam, vêem-se muitas famílias a passear, muitos carrinhos de bebé”.
Até os assaltos, que atormentaram os moradores, passaram, há meses que não se ouve falar de roubos, mas não há bela sem senão. Apesar dos prédios novos, os cafés e as lojas, a droga continua a insinuar-se pela Madalena. Alberto Vieira, comerciante instalado há vários anos na zona, diz que nos últimos tempos o parque estacionamento do supermercado se transformou em ponto de tráfico. “É lá que os rapazes que andam nessa vida combinam os encontros e que compram”.
Marta Caires
Faltam 59 dias para as Eleições Autárquicas (11 de Outubro de 2009)
Pode seguir as respostas a este artigo utilizando um leitor de RSS 2.0. Pode escrever uma resposta, ou trackback do seu site.



