Pela Madeira Dentro – Santa Maria Maior 2
Em Santa Maria Maior, os problemas da droga e da prostituição já foram mais visíveis, mas continuam a fazer parte do dia-a-dia da freguesia.
Segundo os Censos de 2001, a freguesia de Santa Maria Maior tem 13.968 habitantes, dos quais 6.493 homens e 7.475 mulheres, e 4.423 famílias clássicas residentes.
Data: 11-08-2009
Os ponteiros já ultrapassam as 16 horas quando a carrinha de distribuição de metadona estaciona junto ao parque do Almirante Reis. Quase de imediato, alguns jovens em desintoxicação aproximam-se do veículo para receberem a sua dose.
Em Santa Maria Maior, a toxicodependência é uma realidade que todos conhecem de há muitos anos, mas quase todos afirmam que a situação já foi bem pior ou, pelo menos, era bem mais visível. Mónica Santos, da Abraço, associação que tem sede na Rua de Santa Maria, a qual se crê ser a mais antiga da Madeira, sublinha que, há cerca de nove anos. “A partir da altura em que foi excluído aquele parque de estacionamento aqui na zona do Almirante Reis deixou de se ver tanto. Não quer dizer que não exista. Há, mas não de forma tão exposta.” Além disso, Mónica Santos afirma que, actualmente, a droga, assim como a prostituição, deixou de estar tão confinada à Zona Velha. “Aquilo que nós vemos em relação à prostituição é que ela mantém-se, tal vez um pouco mais escondida, mas também mais espalhada pela cidade do Funchal”, disse.
“Antigamente é que paravam aqui o drogados todos”, agora foram todos para a Travessa da Boa Viagem”, afirma Raul Silva, reformado e antigo guarda-redes do Marítimo.
A droga e o tráfico deixaram de ser feitos às claras, mas entre as ‘dunas’ do jardim, sobretudo quando a noite cai, deixam-se adivinhar pelas sombras arrastadas pelo vício da cocaína e da heroína, confundindo-se com as dos que fazem da venda do corpo profissão. “Eu não sei quem foi o projectista, mas aquilo dá é para esconder a prostituição, a droga e o alcoolismo”, afirma Henrique Sousa que nasceu e cresceu na Rua de Santa Maria e por ali ficou a morar.
Sentado num dos bancos junto ao Jardim do Almirante reis, onde há muitos anos funcionou o campo do clube, o ‘Cachucha’, tal como era conhecido Raul Silva, troca o bairro da Nazaré, onde vive actualmente, pela Zona Velha do Funchal, na qual morou durante muitos anos. Todos os dias, desce pela manhã, vai a casa almoçar e regressa à tarde ao banco de jardim, na companhia de outros reformados e companheiros dos jogos de cartas.
Com 85 anos, foram muitas as transformações a que assistiu em Santa Maria Maior e, em particular, na Zona Velha. “Antes isto aqui era tudo moradores”, afirma, apontando para a zona dos restaurantes. Nesses tempo, lembra, as distâncias entre os homens e as mulheres eram para ser cumpridas e até as senhoras iam a banhos de vestido ou de camisa da noite.
Actualmente, o comércio tomou conta da Zona Velha e com ele o movimento de pessoas e de trânsito. As ruas estreitas são entupidas pelos carros estacionados, muitos deles de forma irregular. “Tem carros nos dois lados e ninguém pode passar”, sublinha Raul Silva, lamentando a “falta de força “das autoridades de agora.
“O presidente da Câmara quis desertificar a Zona Velha para dar aos restaurantes”, afirma Henrique Sousa, criticando o facto de os “senhores dos restaurantes” deixarem os carros estacionados “de qualquer maneira”, sem qualquer autuação pela polícia.
“Têm espaço no estacionamento, mas têm de deixar os carros à porta do trabalho deles e nós moradores temos de pagar à câmara para podermos estacionar o carro.”
No coração da freguesia, a qual se estende pela encosta acima, as ruas em calçada são sobretudo percorridas pelos comerciantes, a maior parte de outras localidades, e pelos muitos turistas que ali procuram encontrar a herança de uma Madeira de outrora.
Nos becos e ruelas da Zona Velha, onde terá nascido a primeira povoação do Funchal, são ainda muitos os marcos da História da freguesia, a qual se confunde com a própria História da cidade, uma vez que já teve por sede da paróquia a catedral, hoje em dia pertencente à Sé.
Contudo, como em quase todos os núcleos urbanos históricos, a Zona Velha padece do problema da degradação dos imóveis.
Nos últimos anos, a Câmara Municipal do Funchal iniciou os trabalhos de recuperação de alguns dos edifícios, através de expropriações, assumindo a tarefa de devia ser da responsabilidade dos proprietários. No entanto, a população daquela zona considera que esse é um projecto que não é ainda muito visível.
É também nesta freguesia que se encontra um dos bairros sociais mais antigos, o Bairro de Santa Maria, localizado a uma cota mais elevada. Dada a antiguidade é também um dos mais degradados do Funchal, estando em curso um projecto de reabilitação, desenvolvido em parceria pela Câmara Municipal do Funchal e pela Empresa investimentos Habitacionais da Madeira (IHM).
Os trabalhos de recuperação foram anunciados no início do ano, mas as obras ainda não estão no terreno. De acordo com uma moradora, para já, foi apenas construída uma casa de banho num dos apartamentos.
Descendo novamente a encosta, encontramos também na freguesia de Santa Maria Maior, um dos pontos turísticos mais chamativos do Funchal e também o centro de negócio de muitos comerciantes madeirenses. O Mercado Municipal, mais conhecido por Mercado dos Lavradores.
Ali, o frenesim diário mistura-se com a decadência humana. A zona é muito procurada por sem abrigo ou por pessoas com problemas de alcoolismo ou toxicodependência. “Causam algum incómodo e as pessoas não gostam de ver”, refere Mónica Santos, ressalvando, contudo, que a “pobreza existe um pouco por todo o lado” e “aqui no Funchal é esta área aqui que, realmente, é conhecida pelos sem abrigo”.
Inicialmente denominada por Santa Maria do Calhau, a freguesia de Santa Maria Maior foi criada em 1577. Actualmente, é confrontada, a oeste, pelo Monte, Santa Luzia e Sé, e, a este, por São Gonçalo.
Segundo os Censos de 2001, a freguesia, com 490 hectares, possui 13.969 habitantes e uma densidade populacional de 2.863 habitantes por quilómetro quadrado.
Sílvia Ornelas
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