Pela Madeira Dentro – Monte

Diário de Notícias – Madeira

Um presidente ‘à antiga’
No Monte, a ajuda às famílias cadenciadas é sinónimo de votos.
Data: 14-08-2009

José Rodrigues submete-se, este ano, às últimas eleições, enquanto candidato do PSD à Junta de Freguesia do Monte.

No currículo, soma 12 anos de liderança autárquica. É um ‘presidente à moda antiga’ que gosta de “andar no meio do povo”, detesta falar para a rádio e reage mal às críticas sobre a sua freguesia.

“Não gosto quando dizem mal e, por causa de uma coisa ou outra, põe-nos mal na freguesia”, avisa o autarca ‘laranja’, soltando, de seguida, uma gargalhada, como que a querer suavizar o dito.

A receita parece agradar a mais de metade do eleitorado que, em 2005, brindou o social-democrata com um resultado na ordem dos 2300 votos.

“Este ano, deve levar ainda mais votos”. Serafim Gomes não é adivinho. Compara-se antes a “uma antena parabólica que capta tudo”, mesmo quando as pessoas julgam que não está a prestar atenção.

Tem nome de anjo, mas se há coisa que não promete são milagres: “o PS aqui não tem hipótese, se o actual presidente pudesse ficar mais 8 anos, o povo votava nele”.

É Serafim quem fornece, há 20 anos, as velas aos peregrinos que procuram diariamente a Senhora do Monte. No largo, abaixo da igreja, ouve as conversas, muitas vezes sem lhes ‘dar o troco’. As suas previsões, atesta, têm fiabilidade garantida.

“Este presidente tem feito algumas coisas e o facto de ser do PSD dá-lhe vantagem”. Pela positiva, o comerciante destaca o teleférico, os melhoramentos no Largo da Fonte, a limpeza das veredas e o apoio às famílias carenciadas. À freguesia falta, contudo, um parque infantil e policiamento.

“É preciso ter em conta que uma junta tem pouco dinheiro e que as obras maiores são da Câmara ou do Governo”, ressalva Serafim Gomes.

Extra a influência que o presidente do Governo exerce na votação para os órgãos de poder local, o eleitor acredita que os fracos resultados dos restantes partidos se devem à pouca divulgação dos respectivos candidatos que, por norma, “só aparecem nas vésperas das eleições”.

Nas costas do ‘vendedor de promessas’, João Freitas protesta contra tanto elogio. “Para mim, é indiferente o partido que estiver na Junta”, esclarece antes de reclamar um novo líder: “mais dinâmico e com novas ideias”.

Mesmo que inviável, o bombeiro gostava que fosse a CDU ou o BE a presidir à Junta do Monte. “Os comunistas e os do Bloco de Esquerda estão sempre do lado das pessoas com problemas”, explica João Freitas. Se tem críticas sobre a gestão do presidente José Rodrigues, o bombeiro não as quer partilhar. Pede a mudança porque diz serem já muitos os anos de gestão ‘laranja’.

“Tem de se dar uma oportunidade à oposição, se não existissem mais partidos as coisas estariam muito mal”, afirma João Freitas.

Apoio social é garantia de votos

“Alguma vez, alguém se deu mal no Monte?”. Ninguém responde a Álvaro Silva.

Na roda dos amigos de longa data, a concentração está no jogo de cartas. O reformado vê-se obrigado a responder pelos outros. “Não”, assevera de sorriso na boca.

Aos 50 anos, a festa do Monte passa-lhe quase ao lado. O arraial arranca hoje, mas ontem de tarde já se vivia o lado religioso da efeméride, com alguns peregrinos a ‘passearem’ no Largo da Fonte – mais colorido do que habitual graças às bandeiras festivas e às barraquinhas de comes-e-bebes.

Tão indiferente quanto a festa é, para Álvaro Silva, a cor do partido que governa a Junta de Freguesia do Monte. “É-me indiferente o partido, gostava era que viesse uma pessoas com novas ideias para aqui”, refere.

O antigo bombeiro reconhece algum mérito ao actual líder da Junta. Critica-lhe, contudo, a fraca capacidade reivindicativa junto do Executivo de Jardim. ” Está aqui há 12 anos, com os votos que têm, já podia ter pedido mais coisas ao Governo”, critica.

No rol das faltas, Álvaro Silva coloca um parque infantil, um espaço de lazer para os idosos e policiamento.

A ‘Pimpinela’, como é conhecido Gabriel Gomes, pouco importa um parque infantil ou um espaço para os mais velhos jogarem às cartas. “Este presidente vai ganhar, o pessoal vota todo nele”, afiança o carreiro.

Tinha dezassete anos quando os pais o encaminharam para a profissão e não se vê a fazer outra coisa. Gabriel conhece bem as dificuldades de alguns dos residentes no Monte e garante que poucos presidentes fariam tanto pelas famílias carenciadas.

“Ele tem ajudado os pobres até com material para as casas e é uma pessoa que fala com todo o mundo”, vinca o carreiro. ‘Pimpinela’ não poupa esforços, na defesa de José António Rodrigues: “se não há espaços para crianças, a culpa é do Alberto João que não dá o dinheiro”.

Na cabeça do carreiro, um boné com o rosto de Che Guevara protege-o do sol. Gabriel só sabe que foi “um revolucionário qualquer”. Usa o chapéu porque foi oferecido. Não é comunista, mas admitia votar no PCP para a Junta do Monte, se “este presidente mudasse de partido”.

“O principal está feito, agora é manter”

Com o acesso ao Curral dos Romeiros garantido, José António Rodrigues diz que o Monte fica ‘bem servido’ de infra-estruturas rodoviárias.

“O caminho deve ficar concluído a meados do próximo ano”, afirma o presidente da Junta de Freguesia.

As grandes obras, acrescenta o autarca ‘laranja’, estão feitas e no que concerne ao saneamento básico está tudo bem encaminho. “Na água, também estamos a 100%”, refere.

José António Rodrigues candidata-se a mais um mandato. Diz o autarca que só o faz porque tem a “confiança” da população e do PSD-Madeira.

“Ando no meio do povo e sinto a calor daquela gente”, declara.

Apesar das três vitórias conquistadas ao serviço da maioria ‘laranja’, José António Rodrigues prefere partir para as próximas eleições autárquicas com a prudência da primeira candidatura.

“Ganhar? Espero bem que sim, mas se podem esquecer os outros partidos”, realça.

No rescaldo ao mandato em fim de curso, o actual líder da Junta do Monte garante que só faltou concretizar o alargamento de alguns caminhos, um investimento que vai transitar para os próximos quatro anos.

De resto, “é só manter o ritmo” e continuar a apoiar as famílias com dificuldades, as escolas e a proceder à limpeza das veredas.

“Está tudo bonitinho, mas é só no centro”

Mónica Spínola inscreveu-se no Partido Socialista, há pouco tempo, quando decidiu assumir a candidatura do partido no Monte. É “amiga” do presidente José António Rodrigues, mas acredita que “é possível fazer mais pela freguesia” e até já tem uma lista de compromissos: lutar pela construção de um parque infantil, exigir mais policiamento e promover o investimento privado.

“Está tudo bonitinho, mas é só no centro, o resto da freguesia é uma desgraça”, critica a comerciante de 33 anos.

Mónica Spínola refere, a título de exemplo, o sítio da Corujeira onde “não há nada, nem sequer um pequeno supermercado”.

No Monte, diz a socialista, faltam acessos, espaços verdes e actividades culturais. “Nem parece que estamos no Funchal”, ironiza, considerando que “é inadmissível que não haja actividades para os turistas e para a população”.

Nas últimas eleições, o Partido Socialista conseguiu 842 votos, num total de 4063 inscritos. Já em 2001, os resultados eleitorais não passaram, para os socialistas, dos 881 votos, no correspondente a 22,6% da votação.

O PS tem, segundo Mónica Spínola, quatro elementos na Assembleia de Freguesia do Monte. A comerciante quer subir o número. A meta é, explica, dar voz ao Partido Socialista.

De uma coisa Mónica Spínola garante que não vai abdicar: o direito a apresentar propostas. Longe de querer “confusões”, a socialista quer contribuir para o desenvolvimento da freguesia onde reside.

Inquérito: Como avalia o trabalho da Junta?

Paulo Fernandes, Carreiro
“Penso que não há razões para queixas porque esta Junta tem realmente feito um bom trabalho. A ajuda às famílias tem sido boa e a limpeza também satisfaz”.

José Rodrigues, Pedreiro
“Estou satisfeito e gostava que fosse este presidente a continuar. A freguesia está limpa e arranjada e a Junta tem ajudado as pessoas que precisam”.

Miguel Almeida, vendedor
“Considero que o trabalho desta Junta de Freguesia tem sido bom. Tem ajudado as famílias da freguesia e já se sabe que não se pode fazer muito mais”.

Patrícia Gaspar

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