Pela Madeira Dentro – Imaculado
Data: 18-08-2009
Quem lá vive garante que problemas relacionados com droga e insegurança deixaram de ter expressão com o passar do tempo. Na freguesia do Imaculado Coração de Maria, os residentes fazem poucos reparos ao que falta ou ao que de mal existe, lamentando, entre outras pequenas coisas, a extinção da festa da paróquia há mais de 15 anos, que costumava ocorrer no último domingo de Agosto. Ao certo, ninguém sabe os motivos que levaram ao cancelamento, aparentemente definitivo, das festas, mas os comerciantes, apesar dos anos, ainda lamentam o fim decretado, uma vez que trazia movimento e dava lucro.
Mário Pereira, proprietário de um café perto da igreja matriz, é um fervoroso defensor do regresso de uma festividade que, segundo ele, todos gostavam. “O arraial faz falta”, refere, apontando que trazia “movimento e negócio”. Mário não é capaz de definir ao certo o que poderá ter desencadeado este cenário, com mais de 15 anos. Contudo, ainda aponta que o padre da paróquia, na altura, invocou que a existência de desacatos durante as festividades levaram a esta opção por parte da Igreja.
O presidente da junta de freguesia do Imaculado Coração de Maria, Simplício Pestana, explicou ao DIÁRIO que a razão invocada, ao longo de anos, por parte do pároco foi sempre a mesma. “O motivo apresentado foi que iam para lá pessoas que provocavam distúrbios”, frisou, garantindo que, “por duas vezes”, desde que se encontra à frente da junta de freguesia, tentou ainda trazer de volta a tradição, mas sem sucesso.
Há mais de 15 anos, a festa do Imaculado Coração de Maria é comemorada apenas no interior da igreja. A parte profana das celebrações foi extinta “por opção da Igreja”, como faz questão de frisar Simplício Pestana.
No interior do café de Mário Pereira, as pessoas recordam com saudade um arraial de outros tempos. “Era uma grande festa que nos tiraram”, recorda Mário, criticando a falta de flexibilidade do pároco local. O DIÁRIO tentou ontem falar com o cónego João da Conceição, mas sem sucesso.
Polidesportivo em falta
Há dez anos, Emanuel Vieira trocou a freguesia de São Martinho pelo Imaculado Coração de Maria para viver. Ao fim deste tempo, as referências são as melhores. Numa década, pouco há a apontar. Porém, considera que a igreja matriz encontra-se em mau estado e que as entidades competentes deviam apostar na preservação da igreja e dos jardins, até por causa do turismo que visita a ilha. “Acho que deviam melhorar a igreja e os jardins e o bairro da Penha de França nem devia existir, já que as casas são pré-fabricadas”, sublinha Emanuel Vieira. Sentado numa mesa de um café da freguesia, entende que “não fica bem” o bairro possuir aquelas condições. “Se fosse de bloco e telha, até valia a pena”, afirma.
Em termos de segurança, o morador defende que a freguesia “não é das piores”. “Não é assim tão perigosa”, continua, referindo que a polícia “passa de vez em quando” e que os episódios piores relacionados com insegurança já ficaram para trás. A mesma opinião tem Mário Pereira. “A freguesia está mais calma em termos de assaltos”, confessa, frisando, com contentamento, que a última vez que o café foi assaltado foi há cinco anos. A partir daí, não mais arriscou e decidiu instalar um alarme.
Um centro de saúde e um campo de futebol são outros aspectos que Emanuel Vieira gostava de ver materializados na freguesia onde vive. “Faz falta um campo para jogar à bola, não temos nada, a não ser o campo da Escola do Pinheiro, mas não tem condições”, desabafa. Contudo, o que lhe faz mesmo impressão é o estado da igreja local. “Está uma vergonha, devia ter melhores condições por causa do turismo”, remata.
À frente, no bar de Mário, um morador sublinhou que, apesar de bem abastecida no que se refere a transportes públicos, o primeiro autocarro a passar na freguesia deveria ser às 6 horas da manhã. “Quem entra às 7 horas no trabalho tem de andar bastante para encontrar um autocarro a essa hora”, explicou um cliente de Mário Pereira.
Bairro é “um cantinho do céu”
“Um cantinho do céu” é como os moradores do bairro da Penha de França, na freguesia do Imaculado Coração de Maria, descrevem o sítio onde vivem, sem confusões, desacatos, problemas com vizinhos ou relacionados com violência ou drogas.
“Eu gosto muito de viver aqui, é sossegado, limpo, ninguém se mete com ninguém, é cada um na sua casa e, pelo que vejo nos outros bairros, brigas e polícia, aqui não há nada”, conta Fernanda Andrade, moradora no bairro há mais de 30 anos.
O facto de as casas serem pré-fabricadas parece não entristecer nem embaraçar quem lá mora. Esquecida está já a promessa da autarquia funchalense que, há 30 anos, referiu a vários moradores que a passagem pelo bairro da Penha de França seria provisória. Hoje, apesar das condições que, mesmo assim, não intimidam quem lá vive, os residentes unem-se em torno de um desejo, o de não abandonar o local onde gostam de viver pela tranquilidade, sossego e proximidade a todos os serviços, pagando rendas baixas que rondam os cinco euros, nalguns casos. Para além destes atributos, os próprios habitantes cuidam do bairro. Os becos estão limpos, lavados.
“Isto aqui é tão sossegado que até a Câmara Municipal do Funchal se esqueceu do bairro”, graceja Fernanda, fazendo uma pausa depois de pôr a secar parte da roupa lavada, que cheira a flores do campo. Há 30 anos, foi para o bairro viver, uma vez que residia numa casa com poucas condições na Fundoa. “Na altura, quando me mudei, disseram que era mesmo para ficar por cá e oxalá que se esqueçam mesmo”, repete.
Luciano Pereira também concorda com as apreciações positivas da vizinha. Porém, mais crítico, aponta que já vão aparecendo alguns problemas relacionados com o saneamento básico e que, no Inverno, com o vento, a casa parece que fica “de canelas para o ar”. Luciano lamenta ainda que a autarquia se tenha esquecido da manutenção dos espaços verdes, agora habitados por ratos e que constituem um perigo iminente em caso de fogo. Apesar de tudo, o sossego não tem preço. “Não trocava por isto nada, é um cantinho do céu”, remata a esposa de Luciano.
Zélia Castro
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