Pela Madeira Dentro – Monte (2)

Diário de Notícias – Madeira

Fé e turismo alimentam a freguesia do Monte
Numa freguesia essencialmente virada para os estrangeiros, os locais pedem mais médicos no centro de saúde, estradas e estacionamento.
Data: 14-08-2009

Faltam dois dias para a Festa de Nossa Senhora do Monte, mas no Largo da Fonte, o movimento é já imenso. Não só dos comerciantes que montam as barracas, na esperança de bom negócio ao longo do fim-de-semana, como dos muitos turistas, emigrantes em férias ou curiosos de outras freguesias do Funchal.

A festa da padroeira é a mais famosa da Região e, todos os anos, atrai milhares de pessoas. Se é certo que nem todos vão por devoção, a verdade é que, em tempo de crise, os pedidos de ajuda divina parecem aumentar. José Sarafim Gomes é natural da freguesia e já monta a barraca de venda de velas há mais de 20 anos. Afiança que “há cada vez mais” gente a fazer promessas e a acender as velas com vista a alcançarem a esperada graça. Uma procura que começa já a 5 de Agosto com o início das novenas.

A fé em Nossa Senhora é uma das facetas, do Monte, talvez uma das mais conhecidas, mas não é a única. Diariamente, a freguesia é visitada por imensos turistas, não só pela riqueza da sua paisagem, mas porque ali é ainda possível usufruir de uma das mais antigas tradições da Madeira, as descidas nos carros de cestos. Uma actividade dos carreiros que regista ainda muita procura. Ontem, a fila era tanta que era necessário esperar que alguns carros regressassem à base. Um dia “igual aos outros”, afirma Norberto Gouveia, vice-presidente da Associação dos Carreiros do Monte, mas que, ainda assim, não faz com que o rendimento obtido na profissão seja muito elevado. A maioria dos carreiros estão a tempo inteiro e, em média, cada um faz três a cinco descidas por dia, com um ganho de 12,50 euros por cada pessoa transportada. Normalmente, duas ou três em cada carro.

14 à espera de serem carreiros

Actualmente, estão ao serviço 150 homens e já há dois anos que não há diminuição nem aumento de pessoal. Não pela falta de procura – segundo Norberto Gouveia estão 14 pessoas à espera-, mas porque o rendimento dos que estão também iria descer e os clientes poderiam não chegar para todos.

Ao contrário de outras profissões tradicionais, os carreiros do Monte parecem assim garantir um lugar no futuro. “Isto é para sempre, não acaba”, diz Norberto Gouveia.

Mais complicado está o sector dos vimes, essencial para o principal equipamento de trabalho destes homens. A maior parte dos carros são feitos na oficina do Sr. José Vieira, localizada a poucos metros de distância. Contudo, é o único na freguesia, embora existam ainda artesãos, poucos, na Camacha que também realizam este tipo de trabalho.

Se não existem para já muitas queixas quanto à procura dos carros de cestos, há muito que os carreiros anseiam pela prometida estação. “Era para começar agora neste Verão, mas acho que está meio tremido”, sublinha.

Hoje em dia, os carros são deixados na rua, ficando mais expostos às situações de mau tempo, o que faz com que o desgaste seja mais rápido.

Além de possibilitar um espaço para guardar os carros quando não estão ao serviço, a estação dos carreiros permitiria também que os profissionais desta actividade pudessem tomar duche antes de regressarem a casa. Conforme revelaram, muitos, quase 50%, são de fora da freguesia e têm de usar os transportes públicos, com a transpiração acumulada de um dia de trabalho.

Localizada a cerca de 550 metros acima do nível do mar e a nove quilómetros do centro do Funchal, a freguesia do Monte padece de alguns males de algumas zonas rurais. Há quem se queixe da falta de trabalho, mas as principais críticas vão para as opções feitas no estacionamento.

De acordo com as opiniões ouvidas pelo DIÁRIO, foram realizados dois parques, mas muito distantes da principal entrada da freguesia, o Largo da Fonte. “Em vez de fazerem lá adiante faziam ali nas coroas de henrique, com três andares ou cinco e a parte de cima dava para as camionetas de turismo”, afirma um morador, que, tal como outros, não quis revelar a identidade. Uma tendência frequente quando em causa estão as opções políticas.

O resultado é a persistência no estacionamento irregular junto ao Largo da Fonte.

Por realizar está também uma estrada no sítio da Lajinha, prometida há alguns anos.

Já Augusta Pedra e Maria José Rodrigues têm outras prioridades. O peso dos anos obriga a deslocações mais frequentes ao centro de saúde. Contudo, segundo afirmam, é preciso esperar cerca de três meses por uma consulta. “Só temos três médicos numa freguesia tão grande”, sublinha Augusta Pedra. Actualmente, uma das médicas está de férias, outra está de baixa, pelo que está apenas um médico a assegurar as consultas para toda a população. “A gente precisa é de saúde”, afirma Maria José Rodrigues, quando questionada sobre o que considera estar em falta na freguesia. Em vésperas de festa, a azáfama dos preparativos atrai muitos curiosos. Num dos bancos do Largo da Fonte, Teodoro Xavier observa o movimento, encantado pelo rumo que levou a freguesia onde nasceu, mas que há 35 anos não visitava. Este emigrante na Venezuela sublinha que “já não existe quase nada daquela época”. Porém, afirma que as mudanças não foram negativas e existem hoje em dia melhores condições de vida.

O Monte cresceu e transformou-se, mas a notícia do projecto para a ‘recuperação’ do comboio foi a que mais lhe agradou, revivendo os tempos em que via a antiga locomotiva passar em direcção à Quinta do Terreiro da Luta.

Um ‘regresso’ ao passado que recupera também a ideia romântica de uma freguesia rica em antigos palacetes e quintas, a qual é também conhecida por ‘Sintra Madeirense’.

Noutros tempos, o Monte era afamado por ser um local com boas características para a recuperação de doenças, o que levou a que fosse procurado por importantes personalidades mundiais e nacionais.

Sílvia Ornelas

Pode seguir as respostas a este artigo utilizando um leitor de RSS 2.0. Pode escrever uma resposta, ou trackback do seu site.

Deixe a sua resposta

XHTML: Pode utilizar estas etiquetas: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>